CONTRIBUIÇÕES DO LUNDU PARA A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

09/07/2019 15:12

Mara Coelho Maximiano

        (Mara Max)

 

 

 

Resumo

Neste artigo são examinadas as contribuições do lundu para a formação da música popular brasileira (MPB). De origem africana, o lundu se mesclou à cultura brasileira nascente. Dos desdobramentos deste ritmo, surgiria uma forma de compor peculiarmente brasileira.

 

Palavras-Chave: Lundu; MPB; Música.

 

Abstract

This article examines the contributions of lundu to the formation of Brazilian popular music (MPB). Of African origin, the lundu merged with the nascent Brazilian culture. A peculiarly Brazilian way of composing would emerge from the unfolding of this rhythm.

 

Keywords: Lundu; MPB; Music.

 

INTRODUÇÃO

 

A música perpassa a história das civilizações e constitui um elemento essencial  na formação cultural de um povo.  Se, no Brasil, a música em sua forma mais estruturada chega a estas terras trazida pelos colonizadores portugueses, veremos associarem-se a ela as contribuições de índios e negros, criando uma música mesclada por influências distintas. Ao deixar os salões das elites e atingir as rodas públicas, a música começa a adquirir contornos cada vez mais característicos de um povo resultante do encontro de três raças. Este povo, ímpar, intitula-se povo brasileiro e a sua música reflete uma cultura em formação: a cultura brasileira. Neste processo, destacam-se, já no século XVII, a influência de dois estilos de composição que se tornariam as bases da música popular brasileira (MPB), quais sejam: o lundu e a modinha. Neste artigo, analisaremos as contribuições do lundu para o nascimento e posterior desenvolvimento da MPB.

 

LUNDU: DE SUAS ORIGENS À FORMAÇÃO DA MPB

 

Com os africanos chegaram também ao Brasil elementos próprios de uma cultura muito diversa daquela conhecida pelas famílias portuguesas. Acredito que para manterem viva a África que lhes habitava a alma, os negros percutiam os tambores e moviam os corpos em   ritmo sensual que lhes trazia a lembrança e o aconchego do que um dia eles conheceram como casa: as suas tribos. Dentre estes ritmos, destaca-se o lundu:  uma dança dengosa cantada e executada com ares de voluptuosidade. É nele que vamos encontrar as bases da MPB.

 

No lundu (landum, ludum, londu), os participantes cantam, batem palmas e dançam formando roda, enquanto, ao centro, uma dupla leva um ventre de encontro ao outro na umbigada. Este ritmo chegou as nossas terras muito provavelmente trazido pelos negros de Angola. Penso que por ser uma dança contagiante, o lundu não se deixou aprisionar pelas algemas da escravidão. Aos poucos, tornou-se senhor de si mesmo, largou as senzalas, espalhou-se pelas vilas para, em tempos futuros, e com uma formatação mais apropriada, alcançar os salões.

 

Quando percorro a história da literatura brasileira, evidencio, já no século XVII, o poeta Gregório de Matos adotar em suas composições o lundu: uma dança condenada pela Inquisição e pelos jesuítas. Acunhado de “Boca do Inferno” e “profano”, este poeta cantou seus versos em lundus, ritmo já bastante disseminado pela colônia. Acompanhado agora por uma guitarra ou viola, Gregório de Matos retratou, em seus lundus, a voluptuosidade e a sensualidade das amantes que conquistou, ficando também conhecido como o “Homero do Lundu”, forma de composição que ele aperfeiçoou e divulgou pelo Recôncavo Baiano.

 

Outro nome que merece destaque é o de Domingos Calda Barbosa. Filho de um comerciante português com uma negra, este poeta carioca e tocador de viola levou a Portugal o lundu e modinha. Com versos satíricos e, por vezes maliciosos, Calda Barbosa consolidou estas formas de compor. No segundo volume de seus versos, pelo menos seis de suas composições intitulam-se lundus.

 

No que concerne à forma, ao longo dos séculos, o lundu passa de canção solista à música instrumental executada em bandolins e cravos. Se o lundu-dança continuou a ser praticado por negros, o lundu enquanto canção começou a ser explorado por músicos de teatros. Desta forma, ganhou cada vez mais projeção.

 

Analisando-se a origem da música brasileira, vejo no lundu o despertar de uma forma de compor que, séculos a frente, se transmutaria até adquirir os contornos do samba, ritmo pelo qual o Brasil é plenamente reconhecido no exterior. Penso que devemos aos negros mais esta grande contribuição. Ainda que cativos, deram asas à cultura que trouxeram, mesclaram-na com elementos próprios desta terra e nos presentearam com as bases de nossa música popular.

 

Cantar MPB é, para mim, sobretudo, cantar a nossa própria história: a história de um povo constituído pelo encontro de raças e que soube amalgamar, com maestria, contribuições diversas. Se isto não houvesse ocorrido, não teríamos esta riqueza representada pela música popular brasileira.

 

CONCLUSÃO

 

É inegável a contribuição africana para a formação e a consolidação da cultura brasileira.  A meu ver, não seria possível falar em uma MPB com a riqueza sonora e rítmica que observamos ao longo da história da música brasileira se os elementos africanos não    impregnassem com o seu gingado as suas bases.

 

Penso que se hoje o samba tornou-se a identidade musical do Brasil foi porque, em sua ancestralidade, o lundu ofereceu-lhe os fundamentos. No lundu estão as nossas raízes, portanto, acredito que a ele só temos o que agradecer.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

ALBIN, R. C. O Livro de Ouro da MPB - A história de nossa música popular de sua origem até hoje. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

ANDRADE, M. Aspectos da Música Brasileira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira Ebook, 2012.

BOSI, A. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 2009.

MARIZ, V. História da Música no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

RIBEIRO, D. O Povo Brasileiro: A formação e o sentido de Brasil. 3ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

 

 

   ( * ) Mara Coelho Maximiano cursa Licenciatura em Música na UNINCOR e é menbro do ANTIQUE

   ** Artigo escrito para a disciplina História da Música Brasileira/ Universidade Vale do Rio Verde _ UNINCOR

 

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